Querida Fafá,
Quando saíste, ontem, do Terra do Meio deu-se o maior rebuceteio. A encantaria toda do Uriboca caiu em cima de mim como um enxame. Todo mundo querendo falar ao mesmo tempo. Foi preciso dar um grito para ouvir um de cada vez, mesmo assim era a maior algazarra.
Tava lá o curupira, a matinta, que aproveitou e bebeu todo o litro de cachaça que eu tinha dado para o Fred e ele esqueceu, estavam lá também o boto preto e o vermelho, que insiste em dizer que boto cor de rosa é a puta que pariu, que é coisa de viado. Acho que o sacana é homofóbico. Tava a boiuna comportada e o cobra Norato, metido a besta desde os tempos do Raul Bopp. Todo mundo queria saber tudo de ti e porque demoraste tanto a voltar. Menti muito a teu repeito e, mesmo sabendo que era mentira, afinal a encantaria sabe tudo, escutavam mundiados.
Eles não perderam um só momento em que te banhaste nas suas águas encantadas.
Houve uma hora, quando emergiste com aquelas flores do mato (ver a foto), que eles quase apareceram quebrando todas as regras caruanas. Foi preciso a Matinta falar grosso.
Até o curupira, aquele um dos pés para trás, apareceu com uma viola velha, dizendo, diz-que, era uma guitarra portuguesa e queria que desses uma canja de cantar um fado. Vê, que pirralho mais enxerido...
Depois de muito contar tuas histórias, inventei até que foste hóspede do castelo de Windsor e passaste uma temporada no Taj Mahal, e sem mais cachaça ou jamburana, expulsei a todos, prometendo a cada um, um "retrato" teu autografado, e que não mais ias nos abandonar por tanto tempo.
As águas se abriram ficaram como que fosforescentes e eles aos poucos foram sumindo cantando baixinho as tuas músicas. Um cheiro forte de priprioca tomou conta da noite sem lua deixando neles, e em mim, a saudad
Andre Nunes (texto), Lafayette Nunes( fotos) e lugar - Terra do Meio